Como conviver com animais de estimação pode fazer bem à saúde - SIDESC - Saúde para todos

Como conviver com animais de estimação pode fazer bem à saúde

sidesc como animais de estimacao podem fazer bem a saude

Foi uma simples troca de favores que originou uma das amizades mais duradouras de que se tem conhecimento. Enquanto um oferecia proteção, o outro ajudava com a comida. Assim, aos poucos, lobos e humanos se aproximaram e criaram laços que já existem há milhares de anos.

Hoje, os cães vivem dentro de casa, parecem nos entender, e até ajudam a cuidar da nossa saúde. Mas, desde a aproximação por comida até a cumplicidade que começou com a caça conjunta, passaram-se séculos. Tanto tempo, que esse tipo de relação já se estendeu a outros bichos.

As adaptações que permitiram o estreitamento desses laços foram descritas em um estudo apresentado em 2013 pelo Instituto de Zoologia da Academia Chinesa de Ciências. Na pesquisa, os cientistas Guo-Dong Wang e Ya-Ping mostraram que a diferenciação entre lobos e cães ocorreu há 32 mil anos, na Ásia. Algumas adaptações genéticas foram decisivas para tornar a relação mais amena e, até mesmo, afetiva: alteraram-se os genes do metabolismo e da digestão – provavelmente em função da adoção de uma dieta onívora (na qual se come vegetais e animais) – e os genes neurológicos, o que teria tornado os bichanos menos agressivos.

Dos lobos ao peludo que dorme hoje aos pés da cama, surgiram muitas outras vantagens na relação, além da simples troca de comida por proteção. Embora os cientistas ainda tenham muito a investigar, já conseguiram mostrar que os cães de estimação oferecem conforto e companhia, ajudam a reduzir o estresse e a pressão arterial, incentivam a prática de atividades físicas, estimulam o sentimento de responsabilidade e há até casos de cães que ajudam a descobrir a existência de um câncer de forma precoce.

Alguns desses benefícios, trazidos incialmente pelos cães, foram descobertos também na relação com outras espécies como gatos, aves, coelhos e até peixes. Aos poucos, a ciência comprova o que os donos têm certeza: ter bichos é bom e saudável.

Para o coração

Cientistas tentam entender a relação entre ter animais e os efeitos disso na saúde há muito tempo, com idas e vindas. Em 1991, uma pesquisa do americano James Serpell mostrou que proprietários de cães e de gatos tinham melhora na saúde geral em comparação com os que não tinham animais de estimação. No ano seguinte, um artigo publicado no Medical Journal of Australia mostrou que donos de cães sofrem menos de doenças cardiovasculares, especialmente os homens. Uma revisão desse trabalho, feita em 2003, considerou que faltavam evidências dos benefícios.

Mas, em 2013, um artigo científico da Associação Americana do Coração foi enfático ao afirmar que “ser dono de um animal de estimação, em especial cães, está provavelmente associado a uma redução no risco de doenças cardíacas”. Assinado pelo professor Glenn Levine, do Baylor College of Medicine, nos Estados Unidos, o texto alega que proprietários de cachorros são mais propensos à prática de atividades físicas. Uma das justificativas é simples: um mero passeio com o cão é melhor do que ficar sentado no sofá da sala. Apesar dos resultados, Levine está ciente de que é preciso entender melhor os mecanismos que geram os benefícios, e pondera, no artigo:

“Pode ser que as pessoas saudáveis sejam as que têm animais de estimação, não que ter um animal realmente provoca uma redução do risco cardiovascular. O que está ainda menos claro é se o ato de adotar ou adquirir um pet pode levar a uma redução no risco cardiovascular em pacientes com a doença pré-existente”.

Fato é que permanece um desafio para os cientistas mensurar as diversas intervenções dos animais em nossas vidas ao longo do tempo para uma comparação. Na opinião de Daniela Schuh, cardiologista e integrante do grupo de Prevenção Cardiovascular na Infância e Adolescência do Instituto de Cardiologia de Porto Alegre, embora os mecanismos que tornam esses benefícios mais evidentes ainda não sejam totalmente claros, é muito difícil negar que eles existem:

– Ter um bicho de estimação, principalmente um cachorro, está associado a um menor risco de problemas cardiovasculares. Isso ocorre porque as pessoas parecem se tornar mais ativas, o que, em última análise, pode reduzir a pressão arterial, o colesterol e levar a níveis mais baixos de estresse. Ter um animal aumenta a prática de atividades físicas e a vontade de fazê-las. As pessoas se engajam mais porque pensam não só na saúde delas, mas na do cão também.

Publicidade

Outro ponto determinante para tornar isso uma realidade, também sustentado por artigos científicos, é que ter um bicho está associado a um menor nível de estresse, considerado uma das principais causas de problemas do coração.

– Embora as emoções emanem do cérebro, elas ecoam fortemente sobre o sistema cardiológico. O estresse pode ser atribuído por 30% da carga do risco cardiovascular, só fica atrás do tabaco e da dislipidemia (níveis anormais de lipídios no sangue). E os animais são terapias alternativas para a redução do estresse, assim como meditação, técnicas de respiração e relaxamento – observa Daniela.

Sobre a redução do estresse, os estudos também não são conclusivos, mas a suspeita é de que os benefícios são parecidos com os que resultam da prática do altruísmo e da espiritualidade.

Para o sistema imunológico

O conhecimento científico vem demonstrando que os bichos de estimação podem ajudar a melhorar a imunidade e, inclusive, reduzir as alergias, ao contrário da crença popular de que os pelos podem causar alergias.

– Na década de 1990, estudos demonstraram que crianças que conviviam com um gato apresentavam menor sensibilização aos seus alérgenos, contrariando o que se havia demonstrado para os ácaros da poeira domiciliar. Agora, pesquisas têm relatado que a exposição a cães no primeiro ano de vida teria efeito protetor sobre o desenvolvimento de asma. As crianças que convivem com cães também estão expostas a micróbios e seus produtos, o que justificaria esse efeito protetor por meio de alterações no padrão de resposta imunológica – argumenta o médico alergista Giovanni di Gesu, da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.

Porém, Di Gesu acredita que ainda é preciso cautela, uma vez que estudos ainda estão sendo desenvolvidos e não há um consenso sobre o tema. Ao contrário do que se pensa, não são os pelos do bichanos que provocam as alergias, mas, sim, os alérgenos (proteínas) presentes na caspa, nas escamas da pele e na saliva.

– A alergia não é um problema do animal, é alguma alteração no funcionamento do sistema imunológico do ser humano – diz o infectologista Paulo Ernesto Gewehr Filho do hospital Moinhos de Vento.

Por isso, não é preciso retirar o animal de casa quanto tiver um filho espirrando –
o cuidado mais importante deve ser com a higiene do ambiente, que precisa ser limpo com aspiradores de pó potentes, capazes de eliminar tanto pelos quanto ácaros. Também deve-se evitar que os bichanos subam em camas e sofás, conter beijos e abraços e lavar bem as mãos após as brincadeiras.

Para a mente

Talvez o melhor remédio para vencer aqueles dias estressantes não esteja nas prateleiras de uma farmácia. Pode andar com quatro patas e latir ou miar. Isso mesmo: afagar um bichano parece ser um antídoto muito eficiente para encarar os dias difíceis. Está comprovado que esse “medicamento” peludo é capaz de elevar os níveis de hormônios e neurotransmissores responsáveis pela sensação de bem-estar e disposição.

– Brincar com um cão ou gato pode elevar os níveis de serotonina e dopamina, o que acalma e relaxa. Toque e movimento são duas maneiras saudáveis para gerenciar rapidamente o estresse – explica Ana Luisa Accorsi, psicóloga clínica que trabalha com terapia assistida por animais.

Para obter esses efeitos não é preciso muito. Poucos minutos de interação já são capazes de reduzir a produção do cortisol, hormônio relacionado ao estresse, e aumentar a endorfina e a ocitocina, ligados ao prazer, apontou um estudo apresentado há 16 anos pelo veterinário Johannes Odendaal, da Universidade de Tecnologia de Tshwane, na África do Sul. Foram feitas diversas revisões do trabalho de Odendaal, sustentando os resultados. No ano passado, pesquisadores japoneses mostraram que o simples contato visual entre o cão e seu dono é suficiente para a liberação de vários desses hormônios. Vale lembrar de uma regra básica: um corpo menos estressado tem menos problemas de saúde.

A busca por respostas para os benefícios da relação entre homens e animais dá origem a cada vez mais estudos científicos, que embasam tratamentos alternativos com o auxílio dos bichos. Cães, coelhos, cavalos e até calopsitas já foram usados para ajudar pessoas de todas as faixas etárias, com ou sem deficiências.

– Eles atuam como um ativador comportamental, ou seja, acionam o comportamento que tu desejas que aquela pessoa tenha. Em uma criança com hiperatividade, por exemplo, se quero que ela seja mais centrada, vou usar o animal para fazer com que ela se desenvolva nessas atividades – explica a psicóloga cognitiva comportamental e pet terapeuta Karina Schutz.

Em pessoas com depressão, por exemplo, animais podem estimular uma reintegração social por meio dos passeios diários. Já em crianças com autismo, eles servem como catalisadores da integração social. Ao comparar autistas que tinham cães em casa com aqueles que não tinham, a veterinária americana Gretchen Carlisle comprovou que quem convivia com animais tinha mais habilidades sociais. E esse efeito positivo era conquistado com a presença de qualquer pet em casa. Para explicar o achado, a cientista afirma que os animais agem como “lubrificantes sociais”, pois facilitam e estimulam a interação entre as pessoas. É esse tipo de benefício que é explorado nas sessões de terapia com animais.

– Por meio da pet terapia, são atendidas as necessidades de afeto e segurança e facilitados os processos de integração social que melhoram a capacidade do indivíduo de se relacionar com o mundo exterior e encontrar satisfação nos relacionamentos – afirma Ana Luisa.

Em visitas a residenciais geriátricos ou a pacientes psiquiátricos, os animais ajudam na socialização e vão além: são vetores importantes na quebra da rotina. Karina Schutz relembra o trabalho feito no Hospital Psiquiátrico São Pedro:

– Nesses pacientes, eu trabalhava a recreação. Eles têm um dia a dia pré-definido. E o animal desenvolvia empatia, afeto, vontade de fazer alguma coisa. Eles se arrumavam e esperavam por mim para ter a atividade. Isso é o que muda. Qualquer coisa pode ser dita para um animal, porque ele não está ali para te julgar.

O trote terapêutico dos cavalos

Também bastante comum, a equoterapia ajuda a tratar tanto problemas psíquicos quanto físicos. Responsável pela Cavalo Amigo, que atua há 15 anos na Hípica, em Porto Alegre, a psicóloga e equoterapeuta Silvia Scheffer trabalha muito com crianças que têm dificuldades na escola ou problemas na família.

– Aqui, elas vão aprender a relação com o cavalo e com os terapeutas. São vários elementos que vão fazer essa criança ter uma outra postura. Acho que o cavalo funciona como catalisador. Ele te leva para um mergulho pessoal, melhorando o relacionamento com outras pessoas – avalia.

Já nos casos de quem tem algum tipo de deficiência ou paralisia, o cavalo atua diretamente no sistema nervoso central, estimulando regiões responsáveis pelos movimentos.

– O movimento da passada do cavalo é chamado de movimento tridimensional e imita a passada humana. Ao montar, a pessoa recebe estímulos que vão para o sistema nervoso central. Em 30 minutos, ela tem mais de 20 mil ajustes musculares. Quando desce do cavalo, a gente a coloca em pé para que o sistema nervoso responda – explica Silvia.

Fonte: clicrbs